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Bill Gates é um homem 3 em 1

Bill Gates

Sonhador, homem de negócios e “filho da puta”. Assim o escritor e consultor Des DearLove ajudou a definir Bill Gates, cofundador da Microsoft, no final dos anos 90.

Há motivos para essa descrição. Diz um ditado que toda empresa para ser bem sucedida precisa de 3 tipos de homens – um sonhador, um homem de negócios e um “filho da puta”. Segundo Dearlove, ex-editor do Times, de Londres, Gates é um dos poucos executivos que possui essas três qualidades.

A terceira qualidade, claro, não é no sentido puramente pejorativo, mas relacionada a ser um homem sagaz, impetuoso, concorrente feroz e viciado em vencer, sempre. Essas qualidades do cofundador da Microsoft são exploradas no livro “O estilo Bill Gates de gerir” (216 páginas), de Dearlove, que chega em reedição ao público brasileiro neste mês (a primeira edição foi lançada em 2000).

O lado sonhador de Gates vem do fato de ser apaixonado por computadores e assumir uma posição visionária e não tanto de estrategista na empresa. De saber adaptar e popularizar tecnologias existentes para um contexto maior. A Microsoft não inventou o sistema operacional DOS, mas soube aperfeiçoá-lo.

Windows 95O lado de homem de negócios de Gates se reflete no pragmatismo de sempre contratar gente inteligente, mesmo que essa pessoa saiba mais do que ele ou tenha sido um antigo desafeto. Tudo isso casado com uma atitude de não esperar agradecimentos, ciente de que não agradará a todos.

Ser famoso e, ao mesmo tempo, infame são duas coisas intimimamente ligadas na visão de Gates, o que o coloca entre os “bichos-papões corporativos”, onde já estão John Rockefeller e JP Morgan, que, em suas respectivas épocas, foram vistos como geniais e, ao mesmo tempo, como “anti-cristos”, ao passearem na linha tênue sobre o que é ou não é permitido, sobre limites no mundo dos negócios.

No campo comportamental, antes da “Era Google” e de geek isso e aquilo, Gates mostrou que ser nerd é legal. Foi ele quem abriu as portas para o que hoje é visto como normal e bacana – ‘”nerd chique”. Do executivo estilo John Wayne (sorte, pé no chão e coragem) para o estilo Gates (criatividade, conhecimento e ser visionário).

Antes de Gates, “a América corporativa não gostava dos nerds”, sentencia DearLove. E junto com os nerds veio um estilo despojado, blasé e menos hieráquico de trabalhar (você não “precisa mais trabalhar de terno e gravata”), que, durante duas décadas, Gates melhor personificou. E que, claro, abriu espaço para que o atual “estilo de ser Google” fosse facilmente aceito no meio corporativo.

Bill Gates

“Quando ele apareceu, pensei que era o office boy”, teria tido Jack Sams, executivo da IBM que assinara o contrato com a recém lançada Microsoft, em 1981. Acordo que é visto por Dearlove como um dos grandes trunfos da visão de Gates.

Visão que, no entanto, não conseguiu perceber o quanto a internet tornaria os computadores mais relevantes para as pessoas comuns (a Microsoft entrou atrasada na internet). As pedras ainda estão rolando, mas, sem querer, Dearlove aponta que uma das deficiências da Microsoft foi ter caído no erro  da “previsão singular”. Numa empresa, as conversas sobre o futuro não podem ser feitas pelas mesmas pessoas falando das mesmas coisas. E a visão da Microsoft quase sempre foi a de Gates.

gatescapa_04O lado ruim do livro de Dearlove é que ele chega meio desatualizado ao público brasileiro, mesmo problema do livro de Andrew Keen. Para se ter uma noção, a primeira edição foi publicada em 1999, com uma consequente reedição em 2001. O livro que chega ao Brasil tem como base essa última edição.

Em um trecho, por exemplo, o autor fala sobre “o recém-lançado Windows XP”, enquanto, na realidade, estamos na “Era do Windows Vista” e já caminhando para o Windows 7. Questões como a concorrência com a Google ou a saída de Gates do dia-a-dia da Microsoft não têm espaço.

O livro foi escrito no contexto em que Gates ainda era diretor geral e presidente da Microsoft e a companhia era considerada a maior da América, valendo US$ 262 bilhões, além de ainda ser vista como uma empresa prodígio – jovem, vigorosa e petulante (posto que hoje é da Google).

O estilo Bill Gates de gerir” não é o melhor livro sobre a Microsoft ou o cofundador dela (The Microsoft Way, de Randall E. Stross é bem mais completo), mas é um dos mais concisos.

Em cada capítulo, Dearlove deixa um box com todas as ideias exploradas no texto. E ainda no final do livro faz um resumo das “10 lições que se pode tirar do livro”. O que o faz ser um dos mais didáticos sobre o assunto em português.

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Publicado em livros em