Arte de criar e transmitir boatos

Desde 2005, divulgar boatos dá cadeia na Índia. Nicholas DiFonzo, professor de Psicologia do Instituto de Tecnologia de Rochester (RIT), em Nova York, gosta de utilizar esse exemplo para demonstrar a importância que os boatos têm em nosso dia-a-dia.

A lei indiana foi criada depois que um rumor sobre um possível tsunami mobilizou, sem necessidade, centenas de pessoas e desperdiçou milhares recursos de ajuda para catástrofes.

Apesar de terem essa capacidade de mobilização, boatos e fofocas não são alvo de extensas pesquisas. Assuntos mais nobres ganham destaque. DiFonzo vai pelo caminho diferente. Há mais de 16 anos ele estuda a comunicação informal – boatos, fofocas e rumores. O famoso “ouvir dizer”.

Enfim, tudo aquilo que, nas empresas, nasce na máquina de café. Máquinas de café não fazem apenas café, mas produzem boatos. É onde acontecem as conversas informais, onde todo mundo fica sabendo quem fez isso ou aquilo.

Boatos sempre estão presentes onde há duas ou mais pessoas juntas, lembra DiFronzo em seu livro “O Poder dos Boatos” (304 páginas/Editora Elsevier), que reúne parte de suas obervações na área. O livro se destaca por mostrar que os boatos têm valor. Eles surgem da necessidade humana de tentar explicar o inexplicável. Não é sem motivos que eles crescem justamente em época de incertezas e ansiedades – tragédias e grandes mudanças.

Em outras palavras, boato nada mais é do que uma tentativa de dar respostas às nossas dúvidas. É uma forma coletiva de compreender o mundo. Boatos ajudam as pessoas ao dar uma explicação pronta.

DiFonzo cita o caso de um acidente em uma pequena cidade dos EUA. Um carro com quatro estudantes bateu de frente com um caminhão. Todas morreram na hora. Haviam acabado de se formar no colégio e estavam para entrar na faculdade.

Sem explicações lógicas para o caso, uma tragédia terrível, os boatos começaram a surgir na comunidade.

Eram tentativas de entender algo tão trágico, várias versões para o mesmo caso começaram a aparecer. De que o motorista do caminhão havia acelerado, um terceiro carro havia fechado o das estudantes. Defeito técnico no veículo das vítimas. Sempre eram “explicações” que tentavam inocentar as garotas.

Depois, descobriu-se que o problema foi o uso do celular ao volante. Segundos antes do acidente, a estudante que dirigia o veículo havia recebido e enviado mensagens pelo celular.

É, justamente, quando DiFonzo demonstra esse valor dos boatos, ele ajuda a quebrar mito de que caem em boatos somente pessoas ignorantes e que têm pouco conhecimento dos processos de produção da informação. O que não é verdade, jornalistas, acadêmicos, CEOs, por exemplo, acreditam e propagam boatos o tempo todo.

Quem acompanha os twitters destes perfis, já deve ter percebido que, na pressa e necessidade de “serem relevantes”, semelhante a qualquer pessoa, eles caem em pegadinhas e propagam, muitas vezes sem perceber, informações sem nenhuma base fatual.

Mas por que isso acontece? Segundo DiFonzo, simplesmente pelo fato de que transmitimos boatos devido a diversos motivos. Classe social, profissional ou nível intelectual é o menor deles.

Espalhar boatos é algo humano. Propagamos para entender uma situação e, desse modo, tomarmos decisões mais eficazes. Quanto mais um boato atende às nossas premissas anteriores,  mais o espalhamos, sem remorso, para as nossas redes de contatos. Mais o achamos que é verdade, mesmo sem checar nenhuma das informações.

Pessoas que não gostam de um político, por exemplo, tenderão a propagar e acreditar em boatos negativos sobre ele. Pessoas que não acreditam que a Terra é redonda, mais facilmente propagarão boatos de que a Terra é quadrada.

Além disso, espalhamos informações para criar laços mútuos ou passar a impressão de que “estamos por dentro”. Um exemplo citado é o “vírus do ursinho de pelúcia“.

Em algum momento, alguém deve ter recebido o email sobre um suposto vírus alojado no Windows e que tinha o ícone de um ursinho de pelúcia. O famoso “jdbgmgr.exe“. DiFonzo constatou que muitas pessoas propagaram o boato simplesmente para passar  a impressão de que estavam por dentro das “últimas tendências da internet”.

O Poder dos Boatos” é um livro bem didático. Repete várias vezes a mesma ideia, usa vários exemplos. E é aí que pode estar uma característica do autor, não se aprofunda muito nas ideias. Não é detalhista, fornece mais um panorama geral sobre o asssunto.

Percebe-se isso no penúltimo capítulo, quando DiFonzo pretende dar dicas para empresas sobre como administrar boatos. O autor fica na superfície das coisas e fala sobre o comum.

O pesquisador acerta ao explicar outro motivo por que espalhamos, sem querer, boatos. É para não sermos esquecidos no meio da multidão.

Adaptado ao momento atual, na ânsia de ficar sem assunto, sem atualizar o nosso perfil no Twitter e, assim, perdermos seguidores, acabamos propagando a primeira informação que vemos pela frente.

Em outras palavras,  hoje em dia, como nunca antes, as pessoas precisam de assunto para atualizar seus blogs, twitters e perfis em redes sociais, o que as torna facilmente propagadoras de boatos e rumores.

E sim, a internet ajuda a espalhar boatos, não por causa da sua caratecterística de dar rapidez às trocas de informação, mas, antes de tudo, pelo motivo de ajudar a polarizar as discussões. Segundo DiFonzo, em vez de trazer diversidade, a internet tem facilitado a polarização das discussões. O exemplo se dá no campo dos blogs, que, geralmente, trocam informações e fazem links somente a outros que seguem a mesma ideologia.

Blogs conservadores de política fazem links e trocam informações com blogs conservadores.  Blogs liberais trocam links com blogs também liberais. No Twitter, seguimos apenas pessoas que pensam como a gente. Dificilmente, seguimos ou “retuitamos”  alguém que produz algum tipo de ruído ou publica algo que não gostamos.

Com as ferramentas de personalização, segmentação de conteúdo, a internet torna-se propícia para evitarmos o contraditório, o que também a transforma em terreno fácil para boatos.

DiFonzo justifica essa premissa relatando pesquisas que comprovam que quanto mais polarizado o ambiente, mais fácil os boatos se espalham e menos a sua veracidade é checada. Isso acontece principalmente se os boatos forem repletos de julgamento contra a parte oposta.

Boatos negativos contra democratas, por exemplo, circulam melhor em ambientes republicanos. Boatos racistas circulam melhor em ambientes contra negros. Boatos contra judeus circulam facilmente em ambientes antisemitas, altamente polarizados.

Enfim, quando as partes não se falam, mais boatos são criados e propagados.

Porém, não estamos no fim do mundo.

A internet é uma faca de dois gumes. Por outro lado, ela pode ajudar a desvendar boatos, várias pessoas podem trocar/checar/discutir as informações contidas em um rumor e, dessa forma, em pouco tempo descobrir a sua veracidade. Inteligência coletiva em meio à incerteza.

Existem vários sites de audiência garantida que funcionam como “caçadores de boatos”, como o Snopes e o HoaxBusters. Grandes empresas começam a criar em seu sites centrais de boatos, nas quais levam ao público esclarecimentos sobre certos rumores a respeito de seus produtos e serviços. Algo impensável antes.

Afinal, hoje todos nós potencialmente podemos checar a veracidade de um boato. Podemos fazer isso não por que queremos ser “jornalistas”, mas simplesmente devido ao mesmo desejo humano pelo qual criamos e propagamos boatos, fugir da incerteza sobre qualquer assunto.

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Crédito das fotos: Livefa, Chough, DesireeDelgado, Missbehave e divulgação

15 respostas a “Arte de criar e transmitir boatos”

  1. gostei da materia… mas é tao grande que não terminei de ler… ja deu pra entender nos 4 primeiros paragrafos… não precisa se extender tanto.

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  2. eu encontrei esse livro um mês atrás, mas nunca tinha ouvido falar e acabei não comprando. agora animei de comprar .

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  3. Dória,

    Um questionamento para você. Lendo esse post muito me lembra a situação do blogs sobre o futebol. Se a gente pensar que as grandes empresas acabam, como vc falou, uma central de boatos, o clube de futebol poderia ter uma dessa?

    Falo isso peo seguinte. A crônica esportiva vive (e sobrevivi), e muito, sobre os boatos que muitas vezes são até mesmo criados. Os clubes, muitas vezes acabam até por ter sua imagem riscada por isso, afinal, futebol é o seu “principal” produto. Seria o caso de se ter os clubes também?

    É uma realidade bem brasileira, mas, penso, não iria acabar enchendo de trabalho a assessoria de imprensa dos clubes?

    Enfim, me veio a cabeça o pensamento. Fica para reflexão.

    Abs

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    1. @Diego Simão Rzatki – Tainha

      Diego,

      Ótima questão. Acho que faz sentido uma “central de boatos” na área de futebol. Num primeiro momento, acredito que iria sobrecarregar a assessoria de imprensa, mas, a longo prazo, as pessoas já poderiam ir direto para a central e saber se um boato é verdadeiro ou não. A “central de boatos” se tornaria uma referência.

      E mesmo que sobrecarregue a assessoria a longo prazo, acredito que isso seja normal. A internet gera volumes e demandas maiores de informação (e uma quantidade de boatos numerosa), logo as assessorias precisam acompanhar esse movimento e ter uma infraestrutura maior.

      abs

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  4. Considero extremamente elucidativo o seu texto. Eu mesmo escrevi um livro sobre o tema, intitulado Quando é Preciso Ser Forte, 39a. edição, editora Nobel, 529 páginas. Achei bem interessante quando você declarou que mesmo pessoas inteligentes, bem informadas, como CEOs e Jornalistas, acreditam nos boatos mais inverossímeis. Isso está acontecendo atualmente com os Jornalistas em relação ao nosso trabalho. Por mais que nos disponhamos a esclarecer que tipo de trabalho fazemos, os boatos prevalecem na mídia. Isso me deixa perplexo, pois é muito simples dissipar os rumores simplesmente deixando que nós respondêssemos, esclarecêssemos e documentássemos os fatos. Mas parece que é isso o que as pessoas receiam. Se nos deixarem falar, demonstraremos que era tudo fuxico e algumas pessoas preferem a versão fantasiosa ao invés da verdade. Talvez a verdade não venda tantos jornais! Contudo, continuamos apelando para o senso de justiça e insistindo a que nos dêem uma chance: que nos concedam o benefício da dúvida em vez de pontificar um julgamento à revelia sem direito de defesa ao acusado; ou que nos outorguem a indulgência com relação ao “silêncio obsequioso”, permitindo-nos arrancar a mordaça que nos foi imposta há tantos anos; que nos concedam a oportunidade de esclarecer a população. Bem, Tiago, meu comentário foi apenas um brado a que me deixem falar. Noutros países eu sou ouvido, conforme você pode constatar, por exemplo, na entrevista que dei em Portugal ao jornalista António Mateus, que conviveu de perto com o Mandela, e que me proporcionou uma hora de gravação. Essa entrevista encontra-se no meu blog (www.MetodoDeRose.org/blog). Eu ficaria bem feliz se você assistisse pelo menos um minuto dessa entrevista. Um abraço amigo, forte e apertado. DeRose.

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  5. Eu acho lamentável o ser humano ter que se agarrar a boatos para justificar ou explicar algum fato. Seria tão mais fácil aceitar a realidade, mesmo que ela seja dura. Não vejo nada de positivo em boatos. Só acho que alguns são menos graves e outros são verdadeiras bombas que podem acabar com reputações,é algo realmente inconsequente que parte de pessoas sem juizo, ou mal intencionadas mesmo. Deveria ser punido quem cria e quem alimenta boatos, mas é tarefa difícil controlar a língua, a imaginação e a maldade humana. Que praga!!!!

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    1. Avatar de ricardomendesjr
      ricardomendesjr

      Eu arriscaria acrescentar que a maioria das pessoas com alguma influência no seu tempo ou fizeram algo para esconder a realidade, ou algo para criar uma realidade inexistente. Se isso foi em livro, filme ou outra forma de arte, nenhum mal nos causa, pelo menos diretamente, e nos ajuda a entender a realidade. O problema são as pessoas que fazem isso de outra forma… e aí temos a mídia (e agora a internet) para fazer o resto. E poucas são as pessoas influentes que aceitam a realidade, mas nesse caso, nenhuma influência tiveram, na maioria das vezes, pois a sociedade gosta mais de boatos do que da realidade.

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  6. Tiago,

    acredito também que os boatos servem para afirmar posições, como no exemplo da Terra quadrada. E, muitas vezes, nós mesmos propagamos boatos para afirmar as nossas posições. Como, por exemplo, o caso do acidente da TAM em Congonhas, que gerou até a campanha “não voe por Congonhas”, lembra?

    Até hoje, tenho dúvidas quanto ao motivo do acidente, de tanto que fui bombardeado com as certezas (“ranhuras”, “reversor”, “PAC da aviação sem verbas” etc.)

    Lembro de um amigo meu, piloto profissional, me “quebrando as pernas”, ao me fazer ver que na mesma pista, com os mesmos problemas, aviões muito mais difíceis de serem controlados pousavam há 20 ou 30 anos.

    O que me fazia pensar: será que as informações que temos divulgado são verdadeiras, são boatos ou são o que eu quero que sejam?

    Enfim, o que me traz aos comentários do blog é: o que fazer para sobreviver à enchente de informações e conseguir buscar algo que fuja do achismo, da boataria e da afirmação de opiniões pura e simples?

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    1. @Gabiru

      Boa observação. Muitas vezes o boato é isso mesmo “são as informações que eu quero que sejam”. No livro, o autor comenta que um boato diz muito sobre quem o criou ou propagou.
      Sobre como fugir do achismo, acredito que o ideal é ler e aprender bastante sobre conceitos.

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  7. “Ouvi dizer” que este livro é bom…

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  8. Sinceramente,creio que possa haver “n” razões para o lançamento de um boato, mas tenho claro que as três principais são:
    1 – Especulação (balão de ensaio, muito comum nos meios políticos e industriais/comerciais): lança-se o boato (ex: cerveja pode causar impotência sexual) e espera-se a reação da opinião pública. Conforme seja a reação – positiva ou negativa – as empresas desenvolverão projetos como, por exemplo, adição ou supressão de algum componente ao/do produto.
    2 – Falta do que fazer: pessoas envolvidas em ações úteis à sociedade, seja em que dimensão for, não tem tempo de ficar inventando coisas que não existem ou acontecem na realidade.
    3 – Busca de notoriedade: algumas pessoas sentem forte necessidade de serem vistas ou notadas e, sem capacidade de consegui-lo de forma positiva lançam algum boato que as faráficar, ainda que por pouco tempo, na mira dos holofotes (aqui é também cabível o exemplo da cerveja).
    O fato é que o “boateiro profissional”, acaba quase sempre vencendo: ou fazemos papel de bobos e “engolimos” o boato, mesmo quando seu conteúdo nos pareça absurdo, ou perdemos um tempo enorme buscando nos certificar da veracidade ou não do mesmo.
    A única reação que representa derrota para o “boateiro profissional” é ignorarmos o boato e seguir nossa rotina como se nada tivéssemos lido ou ouvido. Mas, e se de repente noão for boato, for verdade? Eis o rico que corremos em nome da sensatez.
    Ou, resumindo tudo isso em poucas palavras: o lançamento de boatos é o supra-sumo da canalhice.

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  9. isso aí tem a ver com dissonância cognitiva. “Mental conflict that occurs when beliefs or assumptions are contradicted by new information. The concept was introduced by the psychologist Leon Festinger (1919 – 89) in the late 1950s. He and later researchers showed that, when confronted with challenging new information, most people seek to preserve their current understanding of the world by rejecting, explaining away, or avoiding the new information or by convincing themselves that no conflict really exists. Cognitive dissonance is nonetheless considered an explanation for attitude change.” Boatos são uma forma de defesa quando nossas convicções são afrontadas.

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  10. Só um recado " Por favor nunca coloque em duvida os principios morais de outro ser humano por que isto destroi a pessoa em todos os sentidos " obrigado por ter lido …

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