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Três temas que prometem afetar as empresas de jornalismo em 2013

Em 2012, três temas, em especial, marcaram as empresas de jornalismo: a aplicação do conceito de monetizar a audiência e não o conteúdo, o uso crescente de formatos comerciais supostamente “nativos” da web e a tentativa de monetizar em cima dos “arquivos mortos” dos jornais (NYTimes lançou em formato de ebook uma série de reportagens consagradas do jornal).

Em 2013, três novos assuntos prometem, desde já, gerar discussões e debates no dia a dia das principais empresas de jornalismo no mundo.

Behavio

1) Mobile como coletor de dados brutos
O acesso via dispositivos móveis tem sido o principal responsável pelo aumento do tráfego nos sites de notícias. Entretanto, no setor de jornalismo, smartphones e tablets ainda são vistos simplesmente como plataformas de distribuição de informação.

Essa visão vem mudando com a crescente tendência de uso dos dispositivos móveis não somente como distribuidores de conteúdo, mas também como coletores de dados brutos para as empresas de jornalismo.

A startup Behavio, vencedora do último Knight News Challenge, mostra como isso acontece na prática. Em 2012, a empresa lançou um framework para o desenvolvimento de aplicações que explorem ao máximo as tecnologias de sensores embutidas nos celulares (GPS, sensores de movimento, som, luz e temperatura).

Dessa forma, um celular é capaz de coletar e gerar, em tempo real, dados brutos que posteriormente podem ser utilizados para produzir matérias sobre tendências de comportamento de indivíduos e comunidades inteiras.

Segundo Alex Pentland, professor do MIT Sloan e um dos principais incentivadores do uso do framework, o sistema pode ajudar a prever como diversos padrões sociais se espalham, desde obesidade até visões políticas.

A startup Cosm segue um movimento parecido com o da Behavio. A plataforma fornecida pela startup foi utilizada em um recente projeto de coleta, em tempo real, de dados brutos sobre a qualidade do ar em Nova York. As informações foram reunidas por meio de sensores de baixo custo espalhados pela cidade.

Devido ao fato de os dados brutos utilizados nas matérias serem captados por meio dos sensores embutidos em dispositivos móveis e em outros objetos usados no dia a dia, essa crescente iniciativa já é chamada de “sensor journalism“.

algoritmo

2) Transparência no uso de algoritmos
Nos EUA, Google e Facebook são constantemente bombardeadas por organizações de defesa do consumidor com questionamentos a respeito de como funcionam os seus algoritmos de edição de conteúdo.

Geralmente Google e Facebook se posicionam como empresas neutras, “tecnológicas”, sem linha editorial. Porém, ao utilizarem em seus produtos um algoritmo que define a relevância de uma informação, passaram a ser vistas como empresas que tomam decisões editoriais. Dada a influência que têm no dia a dia das pessoas, é natural tal cobrança por transparência.

O mesmo começa a acontecer com as empresas de jornalismo nos EUA. Com o crescente uso de algoritmos para otimizar a edição de homes e a produção de reportagens, cada vez mais se exige maior transparência dos sites das publicações. Quais são os critérios de seleção do algoritmo? Por que tal matéria fica em destaque e outra não? Que garantia temos de que as empresas de jornalismo não estão aplicando a sua agenda no funcionamento dos algoritmos (supostamente neutros)?

Em 2013,  “Algorithmic transparency” promete se tornar uma preocupação cada vez mais presente para empresas de conteúdo que trabalham com informação de relevância social.

Prédio NYTimes

3) Fuga de talentos
O “turnover” sempre foi uma constante nas empresas de jornalismo. Entretanto, um outro problema começa a ser enfrentado – o “turn away”.

Empresas de jornalismo estão perdendo os seus “talentos” para instituições que fornecem uma ambiente mais prático e inovador, como Facebook, Google, YouTube e as startups que pipocam no mercado, ou ainda para o empreendedorismo – profissionais que resolvem montar o seu próprio negócio.

Esse cenário já é sentido por pessoas do mercado e da academia.

Segundo Lewis Dvorkin, estrategista de produtos da revista Forbes, um dos principais desafios atuais das empresas de jornalismo é ser atraente para profissionais criativos e inovadores. A busca por soluções para reverter o “brain drain” no jornalismo foi tema de um longo debate no meio acadêmico britânico em 2012.

A percepção crescente é que as empresas de jornalismo não estão conseguindo atrair nem reter profissionais com um perfil mais realizador.

Aos poucos, medidas são tomadas para reverter esse cenário.

Quando um jornal do porte do NYTimes realiza um “hack day”, não está simplesmente abrindo as suas bases de dados, mas tentando passar ao mercado a mensagem de que é uma empresa dotada de um ambiente espontâneo e inovador de trabalho, condição essencial para atrair profissionais inovadores.

Da mesma forma, quando uma Forbes faz um barulho danado no lançamento de sua reformulação, a intenção é comunicar que a publicação fornece um ambiente prático e de valorização das novas ideias e processos, é uma empresa tão realizadora quanto um Google ou Facebook.

Mesmo assim, às vezes o recado não é ouvido direito. Em tempos recentes, o NYTimes perdeu alguns de seus mais talentosos profissionais, que saíram da publicação para montar as suas próprias startups ou trabalhar em empresas do próprio setor de jornalismo, mas que contavam com um ambiente mais flexível, como o Huffington Post.

Um cenário positivo pode surgir a partir desse tema – as empresas de jornalismo começarem a ter mais cuidado com questões que até então não davam a devida atenção, como política de gestão de talentos e intraempreendedorismo.

Publicado em jornalismo em